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2 de dezembro de 2008

Arrumadinho


A arte crítica tem encontrado cada vez mais meios e formas de exercer seus objetivos. Deste modo, têm muito em comum, ainda que estilisticamente diferentes, o teatro de revista e o teatro de Brecht. Analisar causas, conseqüências e toda a intrincada rede de funcionamento do capitalismo é a técnica escolhida pelo dramaturgo alemão e por quem mais se interesse pela transposição artística de princípios marxistas e, de um modo geral, da sociologia e da ciência política. Há outra forma mais rudimentar de se lançar um olhar crítico para a sociedade, que se constitui através da paródia. Satirizando o objeto de estudo por meio da hipertrofia de seus aspectos negativos, empenha-se no sentido de tornar visível o invisível, o que não é pouco. Em tempos em que a dominação ideológica turva o olhar e escamoteia sua própria ação sobre os indivíduos, usar uma lente de aumento para destacar o que pode não ser aparente já é um esforço louvável. A uma primeira vista, é essa a pretensão do espetáculo Arrumadinho, da Trupe Olho da Rua, ao tratar da competição deliberadamente selvagem do mercado atual. Entretanto, se olharmos com mais acuidade, o espetáculo se apóia na fórmula paródica sem se restringir a ela, propondo algumas analogias e representações simbólicas.

Já em seu prólogo, a ironia brinca com a dimensão trágica. Assim como o ritual de imolação do bode, que em grego deu origem à palavra tragédia, há uma espécie de sacrifício alegórico, em que mendigos são radicalmente transformados em vendedores engravatados. Não há transformação gradual, tampouco esboço de vontade por parte das personagens, e o que se vê é um apagamento brutal do indivíduo, imposto em alguma medida. Não há oposição, pois não há consciência crítica sobre o processo, e a própria anuência passiva já tem seus traços de dominação. O tema da obra está simbolicamente introduzido e o que se vê a partir disso é o esforço claro por parte do poder hegemônico em operar essa transformação no máximo número de pessoas possíveis.

A figura do palestrante que tenta converter todos em vendedores vinculados à sua empresa tem o claro tom demagógico e populista dos charlatões que prometem mundos e fundos, e sua antinomia está em Reginaldo Elias, o ingênuo candidato que se deslumbra com a possibilidade de ascensão social. Fica, assim, claro o valor de face da empresa, que propõe que seus empregados se tornem “vencedores”, independentemente de quem sejam os perdedores e dos meios utilizados para que essa suposta vitória se efetive. A ausência de escrúpulos está posta, e a retórica do orador é construída de forma imagética e apelativa, com grande capacidade de sedução. Embora de forma paródica, dada a que todos vejam a franca exposição da artimanha, toda a estratégia de persuasão guarda grandes proporções com a realidade e é assustadora sua capacidade de convencimento.

O espetáculo detecta com inteligência os pontos em comum entre esse típico charlatanismo e os engodos das culturas de massa. Há analogias com as igrejas que estão mais preocupadas com a arrecadação de fundos do que com o programa religioso, existindo em número cada vez maior e sempre ampliando suas matrizes e filiais, e com os programas televisivos que encobrem seu real objetivo, o ibope, fingindo apelo social através da distribuição de alguns prêmios. São promessas diferentes, todas atrativas ao grande público, que escondem o real objetivo que jamais se volta a terceiros, buscando sempre o benefício próprio. Mesmo com as diferentes estratégias de cada meio, o espetáculo evidencia como o tom do discurso popularesco e o sub-tom interesseiro que se esconde por trás são absolutamente iguais em todo prosélito populista.

Ampliando suas dimensões para o trabalho informal e para o subemprego, o espetáculo entende que a competição desleal e interessada a qualquer custo apenas em um fim de sucesso pessoal contaminou todas as esferas do trabalho e, por isso, a exploração não depende de um vínculo empregatício, mas existe também entre iguais, se prejudicando para conseguir sobreviver, submetendo-se não a um patrão, mas ao próprio sistema. Da mesma forma que se anulam princípios idiossincráticos e crenças pessoais para competir no mercado, os camelôs estrangeiros da peça desvanecem a cultura de seu próprio país, vendendo produtos genericamente representantes de sua tradição, descontextualizada e superficialmente. Mais uma vez, o indivíduo se apaga, exercendo seu trabalho com o mesmo mecanismo reificante de funcionamento de uma máquina.

Por Kiko Rieser

12/11/2008

Um comentário:

  1. Legal vocês terem postado a crítica! Abraços.

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